"They say dreams are like soap. If you don't hold on tight, they slip away."
And we all know what happens next.
18/Jun/2009
(image randomly found on the web)
26/Mai/2009
- Olá.
- Olá.
- Então que carro é que conduzes?
- ... - silêncio - quer os de caixa manual, quer os de caixa automática...
- ... - em confusão.
- Basicamente se tiver a chave posso conduzir qualquer carro.
- Desculpa mas não alimento respostas parvas.
- Então estamos num dilema, é que eu não respondo a perguntas desconexas de outra forma.
30/Abr/2009
Nada melhor do que investir as [poucas] poupanças que ainda temos nas próximas férias de verão. Foi com esse pensamento em mente que reservei uma semana de férias em ibiza. Claro que mal partilhei tal feito com um amigo ele teve que se sair com algo do género:
"Então estás a fazer um tratamento com o qual não podes apanhar sol e vais para ibiza?"
Resposta?
"Temos sempre as noites!" :P
"Então estás a fazer um tratamento com o qual não podes apanhar sol e vais para ibiza?"
Resposta?
"Temos sempre as noites!" :P
13/Abr/2009
Em resposta ao desafio que me foi lançado pelo Nuno e pelo Impossible Prince cá vão as 9 frases sobre mim. Das quais 3 são falsas, podem tentar adivinhar se quiserem. Aceitam-se palpites, bitaites e opiniões infundadas. :P
1-Vício-me facilmente em qualquer "coisa" que goste. (música, filmes, jogos, pessoas...)
2-De vez em quando tenho o hábito de desaparecer sem aviso por uns tempos.1-Vício-me facilmente em qualquer "coisa" que goste. (música, filmes, jogos, pessoas...)
3-A minha primeira namorada "a sério" tinha 20 anos e eu tinha menos 7 anos que ela.
4-Os meus gostos musicais vão desde o metal até ao clássico, mas gosto especialmente de pop.
5-Tenho uma colecção enorme de comic books e action figures, mas há sempre espaço para mais.
6-Um dos meus sonhos desde há bastante tempo é ter um restaurante gourmet.
7-Há algum tempo a minha dermatologista detectou-me um pequeno carcinoma.
8-Adoro a combinação sol, praia, calor, bejecas e amigos.
9-Sou tão friorento que tenho que dormir sempre de pijama, meias e no inverno com o robe vestido.
Para os que possam ter estranhado a ausência de posts neste blog tenho apenas a dizer que estive na cidade do amor e que ela foi muito simpática e generosa para mim.
Para os que possam ter estranhado a ausência de posts neste blog tenho apenas a dizer que estive na cidade do amor e que ela foi muito simpática e generosa para mim.
ps- esqueci-me que é suposto desafiar alguém... por isso desafio (som de tambores) quem quiser ser desafiado lol
21/Mar/2009
Ainda faltam uns mesitos para o álbum sair mas o single já anda por aí. Não me soa mal de todo, mas vou ter que ouvir mais algumas vezes. :)
13/Mar/2009
Do criador de Family Guy e American Dad chegam estes pequenos apontamentos de humor.
Enjoy!
5/Mar/2009
Estou de volta, não sei é por quanto tempo...
"Então e novidades?!" - podem perguntar vocês. Contudo, como eu gosto de antecipar as reacções das outras pessoas já preparei um novo tema. A minha nova medicação :P É verdade, se ainda não tinha sido dado - completamente - como louco agora não vão sobrar muitas hipóteses, senão vejam alguns dos efeitos secundários a ele associado.
- Este medicamento é teratogénico, i.e., provoca malformações graves no seu feto. (ok desta safo-me)
- Este medicamento tem sido associado a doença inflamatória do intestino. Se apresentar diarreia grave (hemorrágica) deve parar imediatamente o tratamento. (erm... ok...)
- Podem ocorrer (muitas vezes) casos graves de vasculite alérgica, (muitas vezes) acompanhadas de nódoas negras e manchas avermelhadas. (portanto se me virem todo negro não assumam que fui espancado, até porque eu sou boa pessoa)
- Risco de hipertensão intracraniana benigna, cujos sintomas são dores de cabeça, náuseas, vómitos, distúrbios visuais e papiloedema. (primeiro, como é que algo como a hipertensão intracraniana pode ser benigna?! ah! deve ser quando não nos mata. segundo, já tive uma destas crises e aos sintomas posso acrescentar sangramento pelos olhos e ouvidos, bem como desmaios. oba oba!)
- Afecções oculares, nomeadamente secura, opacidade da córnea (ou seja cegueira), diminuição da visão nocturna (depois de cegueira esta até parece porreira) e queratite que se resolvem, normalmente, com a interrupção terapêutica. Para aliviar a secura pode usar lágrimas artificiais. Pode ainda ocorrer intolerância a lentes de contacto. (apesar de usar lentes de contacto isto não me preocupa muito, para quê usar lentes de contacto quando se está cego?!)
- Perturbações do foro psiquiátrico, podendo ocorrer casos de depressão, sintomas psicóticos e, raramente, tentativa de suicídio e suicídio durante o tratamento. A interrupção do mesmo pode não ser suficiente para aliviar os sintomas da depressão. (boa, agora já tenho uma desculpa :P)
- Mas o pior, que estrategicamente deixei para o fim, é sem dúvida isto: Deve evitar fazer a depilação com cera durante o tratamento bem como durante um período de, pelo menos, seis mexes após a sua conclusão. Deve ainda utilizar um creme hidratante e um bâton para os lábios desde o início do tratamento uma vez que o tratamento irá causar secura da pele e lábios. (NÃO!!!!!! como é que alguém pode viver assim?! lol)
Se quiserem adivinhar o que ando a tomar estão à vontade. O vencedor terá direito a um prémio muito especial (a satisfação de ter acertado). Quanto aos amigos e conhecidos que me têm tentado contactar há já algum tempo e que têm encontrado os telemóveis desligados aqui está a resposta: estive em tratamento :P
14/Fev/2009

Depois de tantos dias cinzentos não resisti a este dia de sol e fui até à praia. Há lá sítio melhor para pôr a cabeça em dia e aproveitar o sol? E num apontamento piroso, existe cliché maior do que ir para a praia no dia de são Valentim?!
21/Jan/2009
Ele (chamemos-lhe assim para não ferir susceptibilidades) era um homem como qualquer outro, embora sempre tivesse acreditado que era especial, que estava destinado a grandes feitos. Tinha uma vida perfeitamente banal, e sem sentido, sobrevivia através de um trabalho, ou melhor, um conjunto de biscates, que o deixava frustrado, vivendo numa sucessão de dias sem sentido.
Tinha um desejo imenso de mudar de vida e embora se esforçasse para que isso acontecesse sabia que tinha que se esforçar muito mais. Contudo, pensava que um conjunto de trabalhos que surgiam eram pouco dignos da sua pessoa, afinal ele era especial. Simultaneamente, não se queria entregar a qualquer pessoa porque pensava que enquanto não estivesse bem com a sua vida, e consigo mesmo, não tinha disponibilidade para ninguém, ou que em última instância ele não era digno de ninguém.
Nesta dicotomia de dignidades sonhava com o dia, ou semana, em que tudo isso se resolvesse porque lhe sairia o euromilhões.
Esse dia finalmente surgiu,... Saíra-lhe a sorte grande e foi então, feliz por a sua vida estar finalmente a compor-se, levantar o prémio. Tinha ganho 19,19€
17/Dez/2008
"1 - No dia 25 de Setembro, ao teclar a letra A, notei no dedo mindinho da minha mão esquerda uma ténue verruga. No dia 27 pareceu-me consideravelmente maior. No dia 3 de Outubro consegui, com o auxílio de uma lupa, discernir a sua forma. Era uma espécie de elefante minúsculo: o elefante mais pequeno do mundo, certamente, mas um elefante completo até ao mais ínfimo pormenor. Estava colado ao meu dedo pela extremidade da sua reduzida cauda. Prisioneiro do meu mindinho, gozava ainda assim de liberdade de movimentos, excepto na sua deslocação., que dependia por completo da minha vontade.
Com orgulho, temor, dúvidas, exibi-o aos meus amigos. Sentiram nojo, disseram que não podia ser coisa boa andar com um elefante no mindinho, aconselharam-me, até, a consultar um dermatologista. Não gostei das suas palavras, não consultei ninguém, rompi relações com eles, dediquei-me por inteiro a estudar a evolução do elefante.
No fim de Outubro era já um lindo elefantezinho cinzento, da largura do meu mindinho, apesar de bastante mais volumoso. Brincava com ele todo o dia. Às vezes distraía-me a aborrecê-lo, a fazer-lhe cócegas, a ensinar-lhe a dar cambalhotas e a saltar pequenos obstáculos: uma caixa de fósforos, uma afiadeira, uma borracha...
Nesta época pareceu-me oportuno baptizá-lo. Pensei em vários nomes idiotas e, ao que parece, tradicionalmente dignos de um elefante: Dumbo, Jumbo, Umbo... Por último, ascéticamente, preferi chamá-lo Elefante, sem mais.
Adorava alimentar Elefante. Espalhava sobre a mesa migalhas de pão, folhas de alface, pedacitos de relva. E, muito de vez em quando, na beirinha, um pequeno pedaço de chocolate (aquele que tem como imagem de marca um elefante, o que me pareceu oportuno). Elefante esforçava-se, então, por chegar à sua guloseima. Mas eu colocava a mão firme, Elefante não podia alcançá-lo. Deste modo, eu certificava-me que Elefante não era mais do que uma parte - e a mais débil - de mim mesmo.
2 - Pouco tempo depois - digamos, quando Elefante tinha adquirido o tamanho de uma ratazana - já não me era possível controlá-lo com tanta facilidade. O meu mindinho era demasiado fraco para os seus ímpetos.
Por essa altura, eu ainda conservava a ideia errónea de que o fenómeno apenas consistia no crescimento de Elefante. Perdi as ilusões quando Elefante ficou do tamanho de um cordeiro: nesse dia, também eu, fiquei do tamanho de um cordeiro.
Na mesma noite - e ainda algumas mais - dormi de barriga para baixo, com a mão esquerda fora da cama: no chão, ao meu lado, dormia Elefante. Depois tive de dormir - a barriga para baixo, a cabeça na sua garupa, os pés no seu lombo - sobre Elefante. Quase em seguida tornou-se suficiente um fragmento da sua anca para eu dormir. Depois, a cauda. Depois, a pontinha da cauda, onde eu era apenas uma pequena verruga, absolutamente imperceptível.
Nesse momento temi desaparecer, deixar de ser eu, ser um mero milímetro da cauda de Elefante,. Perdi logo esse medo, recobrei o apetite. Aprendi a alimentar-me com pequenas migalhitas, com grãos de alpista, com filamentos de erva e até com insectos quase microscópicos que na altura me sabiam a chocolate.
Claro que isso era antes. Agora voltei a ocupar um espaço mais digno na cauda de Elefante. É verdade que ainda sou aleatório. Mas já posso apanhar biscoitos inteiros e contemplar - invisível, inexpugnável - os visitantes do Jardim Zoológico.
Nesta altura do processo estou bastante optimista. Sei que começou a redução de Elefante. Por isso, os despreocupados visitantes que nos atiram guloseimas inspiram-me um antecipado sentimento de superioridade; eles acreditam apenas no óbvio Elefante que têm diante dos olhos, sem sequer suspeitar que ele não é mais do que um atributo futuro da essência latente que está à espreita, oculta."


FS
13/Dez/2008
"Eu vivo das superstições alheias. Não ganho muito dinheiro e o trabalho é bastante duro.
Acto I
O meu primeiro emprego foi numa fábrica de cerveja em barris. O patrão achava, vá-se lá saber porquê, que um dos milhares de barris (sim, mas qual?) alojava uma bomba atómica. Também achava que uma presença humana era suficiente para impedir que aquela terrível energia se libertasse. Éramos vários empregados, um para cada camião. O meu trabalho consistia em permanecer sentado sobre a superfície irregular dos barris durante as seis horas diárias que durava distribuição da cerveja. Um trabalho árduo: o camião dava solavancos; o assento era incómodo, doloroso até; o trajecto, aborrecido; de vez em quando rebentava um barril - não o da bomba - e eu sofria feridas ligeiras. Por fim, cansado, demiti-me. E o patrão apressou-se a substituir-me por outro homem que, apenas com a sua presença, impediria o rebentamento da bomba atómica.
Acto II
Em seguida, descobri que uma senhora solteirona tinha um casal de tartarugas e acreditava, vá-se lá saber porquê, que uma delas (sim, mas qual?) era o demónio em forma de tartaruga. Como a senhora, que vestia de negro e rezava o rosário, não podia vigiá-las continuamente, contratou-me a mim para que o fizesse de noite. «Como toda a gente sabe», explicou-me, «uma destas tartarugas é o demónio. quando você reparar em duas asas de dragão a crescerem numa delas, não deixe de avisar-me, porque essa, sem dúvida é o demónio. Faremos uma fogueira e queimá-la-emos viva, para, dessa forma, terminarmos com a maldade sobre a face da terra». Nas primeiras noites mantive-me acordado, vigiando as tartarugas: que animais mais estúpidos e sem graça. Depressa o meu zelo me pareceu injustificado e, assim que a solteirona se deitava, envolvia as minhas pernas numa manta e dormia a noite inteira, encolhido numa cadeira de jardim. De maneira que nunca pude averiguar qual das tartarugas era o demónio. Disse então à senhora que preferia deixar o emprego, dado que me fazia mal à saúde passar as noites acordado.
Acto III
Porque, além disso, acabava de me dar conta que para sul havia uma vetusta mansão sobre um barranco alto, e, na mansão, uma estatueta que representava uma doce rapariga francesa dos finais do século XIX. Os donos - um casal de velhos sombrios - acreditavam, vá-se lá saber porquê, que essa rapariga se encontrava doente de amor e tristeza (sim, mas quais?), e que, se não lhe encontrássemos noivo, morreria a curto prazo. Atribuíram-me um salário e converti-me no noivo da estatueta. Comecei a visitá-la. Os velhos deixam-nos sozinhos, ainda que eu suspeite que nos vigiam em segredo. A rapariga recebe-me na melancólica sala, sentamo-nos num sofá gasto, levo-lhe flores, bombons ou livros, escrevo-lhe poemas ou cartas, ela toca languidamente o piano, atira-me suaves olhares, eu chamo-lhe «Meu Amor», beijo-lhe os frios lábios às escondidas, às vezes vou mais longe do que permitem o decoro e a inocência de uma menina dos finais do século XIX. Ela também me ama, baixa os olhos, suspira levemente em silêncio, diz-me: «Quando nos casamos?». «Em breve», respondo. «Estou a juntar dinheiro». Sim, mas a data vai sendo adiada, pois é muito pouco o que posso economizar para o nosso casamento. Como já disse, não se ganha grande coisa vivendo de superstições alheias..."
de e para FS,
pela loucura que sem me conhecer me ensinou
12/Dez/2008
Para quem acompanha a série e está, tal como eu, à espera da última season da Battlestar Galactica (que só estreia em Janeiro), aqui fica algo para espicaçar a memória e não só.
Desde hoje (12/10) até à estreia da tão esperada série (16/01) vão ser lançados 10 pequenos episódios - webisodes - com uma história paralela que por um lado ajuda o tempo a passar e por outro dá alguns desenvolvimentos de alguns personagens. Divirtam-se ;)
7/Dez/2008
Passavam cada vez mais tempo na cama. Onde antes faziam amor freneticamente, devoravam livros, escreviam artigos excelentes… ali, onde o tempo era deles… passaram a simplesmente estar. Não trocavam palavras nem pensamentos. Estavam inertes… e só se tocavam para que o tempo parasse. Os seus olhos caíam nos espelhos e raramente focavam, simultaneamente, os mesmos, muito menos na janela. As compras eram feitas numa correria desenfreada, por mera necessidade, e quando as faziam ficavam presos no dilema de ou comprarem imensa comida ou comprarem menos para demorarem menos tempo a chegar à cama… A solução afigurou-se-lhes numa dessas ocasiões em que perceberam que se se dividissem perdiam menos tempo: entravam apressadamente no hipermercado a uma hora que soubessem que iria estar pouca gente, cada um com o seu carrinho de compras e uma lista previamente feita na cama em que a comida pré-confeccionada abundava. Cada um pagava com o seu cartão de crédito e iam a correr para casa, atiravam as compras para cima da cama, atirando-se eles próprios no instante seguinte. Então, enquanto se tocavam, dispunham a comida ao redor e por baixo da cama.
A simbiose que partilhavam esmorecera. Dormiam pesadamente durante aquilo que poderiam ser dias – pois pelo consumo de comida chegaram a essa conclusão – e acordavam em momentos muito diferentes um do outro. Tendo, no entanto, sempre o cuidado de não se deixarem de tocar.
Num dos momentos em que Eva estava acordada – e Miguel não – chegou a uma conclusão:
-Acorda! – gritou olhando para o espelho – Miguel?!
-O que é que foi?... – retorquiu ele com voz carregada
-Olha para o espelho e diz-me como estou – pediu
Ele ergueu-se um pouco, sentando-se na cama, tocando Eva com o pé. Olhou para ela durante algum, pouco, tempo e respondeu:
-Bonita… como sempre. – disse sinceramente
-Exacto! – respondeu com o narcisismo que tinha vindo a adquirir, e continuou – Quantos anos passaram desde que descobrimos como parar o tempo? – e não lhe dando tempo para responder retomou – três, três e meio no máximo, certo? – perguntou retoricamente – E aqui nesta cama, com o tempo parado, talvez outro três, três e meio… O que dá, no máximo, um total de sete anos… Percebes o que estou a dizer – parou, finalmente, cansada com o raciocínio.
-Podem ter passado sete anos, mas nós não estamos sete anos mais velhos –concluiu ele – talvez três, ou mesmo quatro, mas de certeza que não sete.
-Não diria melhor – concordou – este tempo é como se fosse de borla…
Pela primeira vez desde há já muito olharam os dois para o mesmo espelho, contemplando os seus corpos. Jovens, bem tratados, firmes, … belos.
-Quero ficar assim para sempre – deixaram escapar os lábios de Eva enquanto os seus olhos libertavam uma lágrima solitária.
O tempo continuou a “não passar”, aproveitando meses de tempo de borla, continuaram a comer separadamente, quase nunca se encontravam acordados ao mesmo tempo, a não ser quando necessitavam de ir à casa de banho ou quando tinham que ir às compras. Ambos os casos meticulosamente coordenados para minimizar o tempo perdido. O Amor já nem era preciso, logo deixara de ser precioso, bastava um pequeno toque, quase vestígial, toque esse que era a única lembrança daquilo que anteriormente eram, da sua cumplicidade e simultaneidade. Não sentiam vontade de sair de casa – muito menos da cama – de trabalhar ou sequer viver, conservando-se cada um num estado quasi-vegetativo, olhando para o vazio que era o espelho, vivendo ambos a mesma obsessão em separado… a da Imortalidade: viver para sempre naquela cama onde eram – ou foram? – os senhores do mundo.
Numa das, cada vez mais raras, coordenadas visitas à casa de banho combinaram falar quando chegassem à cama, e assim foi, após uns breves segundos, encontravam-se frente a frente, tocando-se.
-Lembras-te de teres dito que não querias envelhecer? – perguntou Miguel com um ar sério que sempre lhe fora característico
-Sim, não tenho pensado noutra coisa… – cedeu Eva
-Eu também… – confessou – Então temos que ir às compras…
Encheram o quarto com comida pronta a comer e decidiram que o único momento em que não se tocariam seria para ir à casa de banho, viagem já tão pouco frequente que era quase inexistente. O quarto parecia agora um corredor de hipermercado superlotado de todo o tipo de alimentos já confeccionados. No total era comida suficiente para sustentar uma família média durante meses… Voltaram para a cama rapidamente.
-Será que vai dar certo – perguntou ela com algum medo na voz – será que vamos conseguir parar o tempo para sempre?...
-Queres ou não viver para sempre? – retorquiu ele – viver sem envelhecer.
-É que pensei, desde o dia em que nos conhecemos, que nos completávamos um ao outro – explicou – daí ter aceite tão bem o facto de conseguirmos parar o tempo, aqui, nesta cama… onde nos completávamos ainda mais profundamente – disse Eva com um tom saudosista – se nos chateássemos a nossa simbiose acabaria por desaparecer e… bem, pode ser que deixemos de controlar o tempo.
-Então e se nos virássemos de costas um para o outro? – sugeriu Miguel – Para que isto funcione só temos de nos tocar, não interessa como, e assim nunca nos chatearemos…
-Sim, talvez resulte
-Adeus! – disseram pela última vez em uníssono
Assim, deixaram de se ver, deixaram de se falar, deixaram de se Amar, mas nunca… mesmo nunca… deixaram de se tocar. De costas um para o outro, tocando-se, adormeceram, de olhos abertos, sonhando com a eternidade e contemplando nos espelhos os seus corpos para sempre imutáveis.
Naquela que seria a noite do dia seguinte, um ladrão – jamais preparado para esse dia – arromba meticulosamente e com perícia a porta do estúdio deparando-se com um cenário que ficará para sempre gravado na sua mente.
Rodeados de embalagens de comida vazias e pratos sujos, encontrava-se uma cama na qual repousavam, eternamente, dois jovens de costas viradas um para o outro, tocando-se levemente… Os seus corpos nus, perfeitamente jovens e belos – como poucos – no entanto, os seus olhos cheios e abertos em tristeza, olhavam, vaziamente, para os espelhos que se encontravam à frente de cada um. Tanto ele como ela desprovidos de alma… Carregando a dúvida ardente: Quanto tempo dura o Amor Eterno?...
the end!
Finalmente, acordaram – simultaneamente, como se tinha tornado hábito – O braço dele junto à nádega dela. O dela nas costas dele. Nada mais existia entre eles do que o Amor, e o desejo de que este fosse eterno.
Estavam completamente repousados. Mental e fisicamente. Ele é o primeiro a abrir os olhos e a gritar – à sua maneira, e como tem feito nos últimos sete meses – que o seu coração ainda bate:
-Bom Dia Amor – disse suavemente – queres aproveitar a erecção matinal? – sussurrou maliciosamente enquanto lhe mordiscava a orelha.
-Dia?... – perguntou sobressaltada
Ambos olharam para, e pela, a janela. Era de noite. A mesma noite. As mesmas luzes. O mesmo restaurante aberto. Tinham então a certeza de que era o mesmo dia… O despertador marcava uma e quatro.
Sem dizer nada Miguel sai lentamente da cama, como que hipnotizado pelas luzes da situação. Naquele instante o despertador muda de informação. Eva grita:
-Olha! – exclamou histericamente olhando para o mostrador do relógio.
-Uma e cinco… – solta Miguel enquanto que o seu coração inicia uma corrida de forma violenta.
Com movimentos lento – como que se habilmente manipulado por um mestre de fantoches – retira dois cigarros do maço negro e acende-os de uma só vez, passando de seguida um deles à sua amada. Em pouco tempo estes dois consomem-se e Miguel repete o ritual, uma e outra vez… Eram então uma e meia, mas sabiam que tinham dormido uma noite completa. Os cigarros tremiam, a taquicardia aumentava e as mentes mentiam negando o que acontecera.
Intuitivamente Miguel colocou o seu espírito científico a trabalhar. Chegou-se, então, junto de Eva, sentando-se na cama.
-Não resultou – afirmou Eva desapontada e ao perceber o que Miguel tentava fazer – o relógio mudou para uma e trinta e um.
-Então só pode significar uma coisa – concluiu
Começaram-se então a chegar ainda mais perto um do outro. Até se tocarem… Deram e cruzaram as mãos e, durante um longo momento, susteram a respiração. Esperaram… Esperaram imenso tempo… vários minutos, mas os relógios permaneceram estáticos.
Eva olhou para a rua. A sair do restaurante estava um homem solitário a ensaiar o término de um passo. Um passo parado no tempo. Tudo parecia irreal…
Sem palavras Eva fez um sinal a Miguel para se afastarem e, no exacto instante em que se deixaram de tocar, o homem recomeçara a sua caminhada. Não compreendiam o que se passava, simplesmente sabiam que tinham encontrado o seu refúgio perfeito, um mundo só deles que era o templo ao seu amor, onde esse sentimento controlava o próprio tempo…
Depois de várias tentativas – em que se divertiam a parar o tempo aquando de poses distorcidas dos transeuntes – aperceberam-se que tal só funcionava na cama e quando se tocavam. Um pequeno toque, uma pequena cumplicidade era o que bastava para que as leis do tempo fossem alteradas. Podiam permanecer ali horas, dias, semanas… o tempo que quisessem a fazer o que queriam: falar, ler, escrever, pensar, trabalhar, dormir… ou simplesmente fazer amor. A única – mas, comparativamente, minúscula – desvantagem é que nenhum aparelho que implicasse algum movimento funcionasse, isto é, nenhum aparelho eléctrico, e mesmo de outras origens, funcionavam correctamente, ficando estáticos, o que implicava que não podiam ouvir música, ver televisão utilizar o computador, etc. A única excepção eram as luzes que permaneciam sempre ligadas, o que baralhou a mente de Miguel, pois não percebia como é que com o tempo parado o movimento dos electrões, que permitiam a execução das funções dos aparelhos eléctricos, era mantido, mas tal era a bênção que tinham encontrado que o facto de a imagem da televisão ser sempre a mesma, os rádios ficarem mudos, o telemóvel simplesmente morto e o computador igualmente estático passavam completamente ao lado da mente quer de Miguel quer de Eva. Como mais valia descobriram ainda que a comida, que levavam para a cama, mantinha-se à mesma temperatura. Efectivamente o tempo não passava para elas.
Adaptaram-se rapidamente a este novo estilo de vida, usufruindo de tudo o que ele lhes permitia, ampliando, assim, imensamente a consciência das possibilidades da sua nova vida. Permitindo que os amanhãs fossem uma visão tão distante quanto desejassem.
Como seria de esperar, as carreiras profissionais de ambos melhoraram imenso, tinham muito mais tempo para trabalhar e ainda mais para se divertirem. Sempre que um deles se deparava com um problema profissional bastava-lhe ir até à cama, tocarem-se e então começavam a trabalhar, fazendo, amiudemente, pausas para se divertirem. Para quebrar a monotonia decidiram instalar espelhos nas paredes, o que lhes servia de suplemento sexual. Aumentando o que já era enorme. Passaram a confeccionar grandes quantidades de comida para que desse para várias refeições – em muitos casos cortesia o próprio Miguel – mas passado algum tempo começaram também a comprar comida já confeccionada.
A existência destas bolsas de tempo permitiu-lhes alcançar, rapidamente, os seus objectivos profissionais. Ele chegava a reflectidas e fantásticas conclusões a nível científico que o levaram a publicar inúmeros artigos, ela tinha escrito um enorme e fabuloso livro sobre a evolução das línguas e dos dialectos modernos que foi considerado uma das melhores teses da área alguma vez escritas.
Isto garantiu-lhes uma vida cheia de conferências e entrevistas que por sua vez levaram a muitos jantares e festas… a vida social que nunca tiveram e tantas vezes desejaram…
Durante anos divertiram-se mais do que qualquer outro e concomitantemente trabalhavam com mais energia e vitalidade do que qualquer outro. Independentemente da hora a que a festa acabasse jamais faltavam ao emprego. Estavam doentes?... Permaneciam na cama enquanto não estivessem bem, não lhes apetecia trabalhar?... Ficavam na cama até a um dia seguinte em que apetecesse a ambos, estavam com um qualquer problema?... Arranjavam uma solução para ele e enquanto não o fizessem permaneciam na cama a debaterem-se sobre ele… o tempo era deles. E assim continuou até Miguel chegar a chefe de departamento no centro de investigação em que trabalhava e Eva a professora responsável de duas disciplinas do ensino superior. A partir daí começaram a delegar funções para os seus assistentes de modo a estes realizarem os projectos que desenvolviam na cama, o portal para o mundo só deles.
Começaram a fartar-se das festas, dos jantares, dos conhecidos… de toda a vida social que desenvolveram. Contavam os minutos para chegarem a casa e saltarem para cama. Este era o eixo que lhes sustentava o mundo, o ponto-mãe a partir do qual o tempo se construía…
O tempo que era deles, mas esse tempo não lhes era cedido sem exigir nada em troca, mesmo que eles ainda não tivessem consciência de tal sacrifício.
Estavam completamente repousados. Mental e fisicamente. Ele é o primeiro a abrir os olhos e a gritar – à sua maneira, e como tem feito nos últimos sete meses – que o seu coração ainda bate:
-Bom Dia Amor – disse suavemente – queres aproveitar a erecção matinal? – sussurrou maliciosamente enquanto lhe mordiscava a orelha.
-Dia?... – perguntou sobressaltada
Ambos olharam para, e pela, a janela. Era de noite. A mesma noite. As mesmas luzes. O mesmo restaurante aberto. Tinham então a certeza de que era o mesmo dia… O despertador marcava uma e quatro.
Sem dizer nada Miguel sai lentamente da cama, como que hipnotizado pelas luzes da situação. Naquele instante o despertador muda de informação. Eva grita:
-Olha! – exclamou histericamente olhando para o mostrador do relógio.
-Uma e cinco… – solta Miguel enquanto que o seu coração inicia uma corrida de forma violenta.
Com movimentos lento – como que se habilmente manipulado por um mestre de fantoches – retira dois cigarros do maço negro e acende-os de uma só vez, passando de seguida um deles à sua amada. Em pouco tempo estes dois consomem-se e Miguel repete o ritual, uma e outra vez… Eram então uma e meia, mas sabiam que tinham dormido uma noite completa. Os cigarros tremiam, a taquicardia aumentava e as mentes mentiam negando o que acontecera.
Intuitivamente Miguel colocou o seu espírito científico a trabalhar. Chegou-se, então, junto de Eva, sentando-se na cama.
-Não resultou – afirmou Eva desapontada e ao perceber o que Miguel tentava fazer – o relógio mudou para uma e trinta e um.
-Então só pode significar uma coisa – concluiu
Começaram-se então a chegar ainda mais perto um do outro. Até se tocarem… Deram e cruzaram as mãos e, durante um longo momento, susteram a respiração. Esperaram… Esperaram imenso tempo… vários minutos, mas os relógios permaneceram estáticos.
Eva olhou para a rua. A sair do restaurante estava um homem solitário a ensaiar o término de um passo. Um passo parado no tempo. Tudo parecia irreal…
Sem palavras Eva fez um sinal a Miguel para se afastarem e, no exacto instante em que se deixaram de tocar, o homem recomeçara a sua caminhada. Não compreendiam o que se passava, simplesmente sabiam que tinham encontrado o seu refúgio perfeito, um mundo só deles que era o templo ao seu amor, onde esse sentimento controlava o próprio tempo…
Depois de várias tentativas – em que se divertiam a parar o tempo aquando de poses distorcidas dos transeuntes – aperceberam-se que tal só funcionava na cama e quando se tocavam. Um pequeno toque, uma pequena cumplicidade era o que bastava para que as leis do tempo fossem alteradas. Podiam permanecer ali horas, dias, semanas… o tempo que quisessem a fazer o que queriam: falar, ler, escrever, pensar, trabalhar, dormir… ou simplesmente fazer amor. A única – mas, comparativamente, minúscula – desvantagem é que nenhum aparelho que implicasse algum movimento funcionasse, isto é, nenhum aparelho eléctrico, e mesmo de outras origens, funcionavam correctamente, ficando estáticos, o que implicava que não podiam ouvir música, ver televisão utilizar o computador, etc. A única excepção eram as luzes que permaneciam sempre ligadas, o que baralhou a mente de Miguel, pois não percebia como é que com o tempo parado o movimento dos electrões, que permitiam a execução das funções dos aparelhos eléctricos, era mantido, mas tal era a bênção que tinham encontrado que o facto de a imagem da televisão ser sempre a mesma, os rádios ficarem mudos, o telemóvel simplesmente morto e o computador igualmente estático passavam completamente ao lado da mente quer de Miguel quer de Eva. Como mais valia descobriram ainda que a comida, que levavam para a cama, mantinha-se à mesma temperatura. Efectivamente o tempo não passava para elas.
Adaptaram-se rapidamente a este novo estilo de vida, usufruindo de tudo o que ele lhes permitia, ampliando, assim, imensamente a consciência das possibilidades da sua nova vida. Permitindo que os amanhãs fossem uma visão tão distante quanto desejassem.
Como seria de esperar, as carreiras profissionais de ambos melhoraram imenso, tinham muito mais tempo para trabalhar e ainda mais para se divertirem. Sempre que um deles se deparava com um problema profissional bastava-lhe ir até à cama, tocarem-se e então começavam a trabalhar, fazendo, amiudemente, pausas para se divertirem. Para quebrar a monotonia decidiram instalar espelhos nas paredes, o que lhes servia de suplemento sexual. Aumentando o que já era enorme. Passaram a confeccionar grandes quantidades de comida para que desse para várias refeições – em muitos casos cortesia o próprio Miguel – mas passado algum tempo começaram também a comprar comida já confeccionada.
A existência destas bolsas de tempo permitiu-lhes alcançar, rapidamente, os seus objectivos profissionais. Ele chegava a reflectidas e fantásticas conclusões a nível científico que o levaram a publicar inúmeros artigos, ela tinha escrito um enorme e fabuloso livro sobre a evolução das línguas e dos dialectos modernos que foi considerado uma das melhores teses da área alguma vez escritas.
Isto garantiu-lhes uma vida cheia de conferências e entrevistas que por sua vez levaram a muitos jantares e festas… a vida social que nunca tiveram e tantas vezes desejaram…
Durante anos divertiram-se mais do que qualquer outro e concomitantemente trabalhavam com mais energia e vitalidade do que qualquer outro. Independentemente da hora a que a festa acabasse jamais faltavam ao emprego. Estavam doentes?... Permaneciam na cama enquanto não estivessem bem, não lhes apetecia trabalhar?... Ficavam na cama até a um dia seguinte em que apetecesse a ambos, estavam com um qualquer problema?... Arranjavam uma solução para ele e enquanto não o fizessem permaneciam na cama a debaterem-se sobre ele… o tempo era deles. E assim continuou até Miguel chegar a chefe de departamento no centro de investigação em que trabalhava e Eva a professora responsável de duas disciplinas do ensino superior. A partir daí começaram a delegar funções para os seus assistentes de modo a estes realizarem os projectos que desenvolviam na cama, o portal para o mundo só deles.
Começaram a fartar-se das festas, dos jantares, dos conhecidos… de toda a vida social que desenvolveram. Contavam os minutos para chegarem a casa e saltarem para cama. Este era o eixo que lhes sustentava o mundo, o ponto-mãe a partir do qual o tempo se construía…
O tempo que era deles, mas esse tempo não lhes era cedido sem exigir nada em troca, mesmo que eles ainda não tivessem consciência de tal sacrifício.
(só falta mais uma parte para acabar o conto,
algum palpite de como vai acabar? :P)
Ele olhou de novo para o telemóvel e o mostrador das horas não mudara, e não foi com grande espanto que ao pressionar algumas teclas do mesmo nada aconteceu – Porcaria de telemóvel – pensou alto enquanto saía da cama.
Pousou os pés no chão frio e um arrepio percorreu-lhe o corpo nu, deixando-lhe os seus, poucos, pelos e os mamilos erectos, parecendo que só agora acordara realmente. Despertara de um longo sono. E, como sempre que acordavam, baixou-se e tocou-lhe com a ponta dos dedos, suavemente, nas costas de Eva enquanto lhe beijava o pescoço.
-Vou fazer uma pasta – disse enquanto vestia os boxers – também queres?
-O que me apetecia sabes tu bem o que é – disse maliciosamente – mas uma pasta para entrada parece-me bem, ou então – brincou enquanto se virava na cama, presenteando o seu amado com o seu belo corpo aberto em ânsia – podíamos encomendar comida no Huang’s e tu voltavas para a cama… Só é pena e que já deve estar fechado.
Miguel preparava-se para tecer um comentário de falso ressentimento devido a Eva preferir comida chinesa à sua especialidade. Aliás, a sua arte gastronómica era uma mais valia na relação, especialmente no que tocava à gastronomia italiana. Era mais um dos momentos que partilhavam e que repetiam com bastante assiduidade.
Descalço e, agora, semi-nu Miguel desceu as escadas que ligavam o quarto à sala e cozinha do estúdio. Era a casa dos sonhos deles. Sempre foi. Um estúdio com um enorme vidraçal no que seria uma das paredes, numa movimentada rua da metrópole. A luz citadina penetrava este quinto andar e, sem pedir licença, desenhava sombras de varias cores – mas especialmente vermelhas.
Ali, imóvel, olhava através do vidro e pensava no quanto a sua vida havia mudado. As luzes estimulavam o seu raciocínio – que segundo Eva pecava por ser demasiado racional, fosse lá isso o que fosse – os seus olhos deambulavam erraticamente, mas fixaram-se no restaurante chinês.
-Eva – chamou – afinal o Huang’s ainda está aberta – constatou surpreendido.
Houve uma pausa…
O semáforo ficou verde e um carro metalizado de linhas felinas iniciou a sua marcha.
-Estranho – confirmou Eva.
Nova pausa.
-Ainda mais estranho – continuou – o despertador está a funcionar – ainda mais uma pausa – e o teu telemóvel também…
Eva, na cama, encolheu os ombros e Miguel, enquanto se dirigia para a bancada da cozinha, repetiu o mesmo gesto. Ligou a televisão no canal das notícias e pôs água numa panela que de seguida levou para o lume. Enquanto esperava que a água fervesse preparou um molho à base de natas e queijo mozarella, no entretanto colocou o spaghetti a cozer e no período de espera foi até ao televisor onde a apresentadora soltou as palavras “…é agora uma da manhã…”. O relógio em rodapé confirmava. Era de facto uma hora da manhã, mas não ligou muito. A sua mente de cientista dizia-lhe que podiam ter dormido uns segundos que lhe pareceram horas. Já tinha ouvido falar de tais casos.
No momento seguinte estavam na cama de pernas entrelaçadas a saborear a pasta. Ficaram em silêncio. Ele olhou através da janela. O chinês continuava aberto… Sem movimento na rua… Tudo deserto.
-A que horas fecha o Huang’s? – perguntou Miguel com curiosidade
-Raramente ficava aberto depois da uma… – atestou – Porquê?
-Acho estranho continuar aberto…
Reinava uma estagnação no modo como a luz brilhava sobre os edifícios do outro lado da rua. Lembrava um cenário de filme antigo ou um quadro habilmente pintado.
Parou de comer. Estava cheio. Olhou para o telemóvel que marcava uma e dezanove. Tal era impossível!
-Merda! – exclamou furioso
-Desculpa Paixão, foi por não ter agradecido? – perguntou envergonhada por tal acontecer varias vezes – Ou fiz algo de errado?
-Não é nada disso… - confessou, apesar de o que Eva tinha dito era verdade e até o incomodar – É por causa do telemóvel. Paguei um dinheirão por esta porcaria e está novamente bloqueado…
Ela que acabara também de comer pousou o prato na mezinha de cabeceira, por cima do despertador, que por sua vez estava também parado na uma e quatro. Quinze minutos mais cedo que o que o telemóvel marcava…
-Isto é mesmo estranho! – exclamou.
-Ignora e vamos dormir – disse ele – de manhã explico-te a Teoria da Relatividade. – disse com um sorriso beijado.
Apesar de repousados o sono veio passado algum tempo, levando a estranheza para um mundo onírico. Mundo esse que em breve seria a nova morada de ambos, mas os sonhos que temos nem sempre são o melhor para nós e eles estão prestes a perceber o quão perigoso pode ser sonhar demasiado alto...
Pousou os pés no chão frio e um arrepio percorreu-lhe o corpo nu, deixando-lhe os seus, poucos, pelos e os mamilos erectos, parecendo que só agora acordara realmente. Despertara de um longo sono. E, como sempre que acordavam, baixou-se e tocou-lhe com a ponta dos dedos, suavemente, nas costas de Eva enquanto lhe beijava o pescoço.
-Vou fazer uma pasta – disse enquanto vestia os boxers – também queres?
-O que me apetecia sabes tu bem o que é – disse maliciosamente – mas uma pasta para entrada parece-me bem, ou então – brincou enquanto se virava na cama, presenteando o seu amado com o seu belo corpo aberto em ânsia – podíamos encomendar comida no Huang’s e tu voltavas para a cama… Só é pena e que já deve estar fechado.
Miguel preparava-se para tecer um comentário de falso ressentimento devido a Eva preferir comida chinesa à sua especialidade. Aliás, a sua arte gastronómica era uma mais valia na relação, especialmente no que tocava à gastronomia italiana. Era mais um dos momentos que partilhavam e que repetiam com bastante assiduidade.
Descalço e, agora, semi-nu Miguel desceu as escadas que ligavam o quarto à sala e cozinha do estúdio. Era a casa dos sonhos deles. Sempre foi. Um estúdio com um enorme vidraçal no que seria uma das paredes, numa movimentada rua da metrópole. A luz citadina penetrava este quinto andar e, sem pedir licença, desenhava sombras de varias cores – mas especialmente vermelhas.
Ali, imóvel, olhava através do vidro e pensava no quanto a sua vida havia mudado. As luzes estimulavam o seu raciocínio – que segundo Eva pecava por ser demasiado racional, fosse lá isso o que fosse – os seus olhos deambulavam erraticamente, mas fixaram-se no restaurante chinês.
-Eva – chamou – afinal o Huang’s ainda está aberta – constatou surpreendido.
Houve uma pausa…
O semáforo ficou verde e um carro metalizado de linhas felinas iniciou a sua marcha.
-Estranho – confirmou Eva.
Nova pausa.
-Ainda mais estranho – continuou – o despertador está a funcionar – ainda mais uma pausa – e o teu telemóvel também…
Eva, na cama, encolheu os ombros e Miguel, enquanto se dirigia para a bancada da cozinha, repetiu o mesmo gesto. Ligou a televisão no canal das notícias e pôs água numa panela que de seguida levou para o lume. Enquanto esperava que a água fervesse preparou um molho à base de natas e queijo mozarella, no entretanto colocou o spaghetti a cozer e no período de espera foi até ao televisor onde a apresentadora soltou as palavras “…é agora uma da manhã…”. O relógio em rodapé confirmava. Era de facto uma hora da manhã, mas não ligou muito. A sua mente de cientista dizia-lhe que podiam ter dormido uns segundos que lhe pareceram horas. Já tinha ouvido falar de tais casos.
No momento seguinte estavam na cama de pernas entrelaçadas a saborear a pasta. Ficaram em silêncio. Ele olhou através da janela. O chinês continuava aberto… Sem movimento na rua… Tudo deserto.
-A que horas fecha o Huang’s? – perguntou Miguel com curiosidade
-Raramente ficava aberto depois da uma… – atestou – Porquê?
-Acho estranho continuar aberto…
Reinava uma estagnação no modo como a luz brilhava sobre os edifícios do outro lado da rua. Lembrava um cenário de filme antigo ou um quadro habilmente pintado.
Parou de comer. Estava cheio. Olhou para o telemóvel que marcava uma e dezanove. Tal era impossível!
-Merda! – exclamou furioso
-Desculpa Paixão, foi por não ter agradecido? – perguntou envergonhada por tal acontecer varias vezes – Ou fiz algo de errado?
-Não é nada disso… - confessou, apesar de o que Eva tinha dito era verdade e até o incomodar – É por causa do telemóvel. Paguei um dinheirão por esta porcaria e está novamente bloqueado…
Ela que acabara também de comer pousou o prato na mezinha de cabeceira, por cima do despertador, que por sua vez estava também parado na uma e quatro. Quinze minutos mais cedo que o que o telemóvel marcava…
-Isto é mesmo estranho! – exclamou.
-Ignora e vamos dormir – disse ele – de manhã explico-te a Teoria da Relatividade. – disse com um sorriso beijado.
Apesar de repousados o sono veio passado algum tempo, levando a estranheza para um mundo onírico. Mundo esse que em breve seria a nova morada de ambos, mas os sonhos que temos nem sempre são o melhor para nós e eles estão prestes a perceber o quão perigoso pode ser sonhar demasiado alto...
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